
E como se uma
criança passasse a vida deitada na cama completamente
às escuras, sem coisa alguma para ver ou ouvir, e
apenas com uma espécie de mudança em toda a sua
existência: ter e não ter alguma coisa dentro da boca.
Não, essa vida não é lá coisa que quiséssemos para
nós; e todavia, quantos entes há no mundo que não a
levam melhor! Como é diferente da deles a nossa vida!
Nós temos muitos sentidos ou portas do conhecimento.
Alguns deles, como o gosto e o cheiro, são menos
importantes do que os outros ... O tato já é de de maior
importância, e o mesmo podemos dizer do sentido do calor
e do frio.
Depois vem o maravilhoso sentido do ouvido, com o qual
adquirimos tantas espécies de conhecimentos e nos
encantamos com tanta coisa bela — como o cantar das
aves, o rumor do mar, as vozes dos nossos amigos, e essa
coisa sublime que se chama música.
Muito melhor, porém, que tudo isto, como porta do conhecimento, é o sentido da vista. Por seu intermédio tomamos conhecimento dum sem-número de coisas maravilhosas. Mostra-nos o solo que há sob os nossos pés e o céu que está por cima das nossas cabeças; o Sol, a Lua, as estrelas, as estrelas cadentes, o relâmpago ou um lindo pôr de sol sobre as águas do mar. Permite-nos identificar os nossos amigos e conhecer toda essa maravilhosa variedade de seres vivos que há sobre a Terra. A vista diz-nos - e nisto nos ajuda também o sentido do calor e do frio - que o tempo está dividido em horas de luz e horas de obscuridade.
A existência, tão banal, da noite, quando pensamos bem,
aparece-nos como verdadeiramente maravilhosa. Aliás as
coisas mais comuns serão sempre maravilhosas, se as
considerarmos não só com os olhos do nosso rosto, mas
também com o da alma.
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