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O EPISÓDIO do gigane Adamastor, n"*0s Lusíadas", é uma das mais arroladas
^"^ grandiosas concepções da poesia de todos os tempos.
Quando Bartolomeu Dii chegou ao cabo extremo do sul da África, vendo-se obrigado a retroceder,
deu-lhe nome de Cabo das Tormentas, aliás bem merecido, pois os temporais
são aí íreqüent e terríveis, e
inúmeros os naufrágios. Camões fantasiou que, ao dobrar Vasco da Gan o cabo, este lhe apareceu sob a forma de um
gigante, e lhe conta sua história e
lhe pred os vários males que há de
infligir aos portugueses, como vingança de haverem ousai devassá-lo. Com efeito, ali naufragaram,
como o gigante vaticina, entre rnuitíssim
armadas e navegantes, o descobridor do cabo,Bartolomeu Dias, e D.
Manuel de Sou Coutinho, "liberal,
cavaleiro, enamorado", com sua mulher e filhos; ali morreu, quani voltava a Portugal, o primeiro vice-rei da Índia, o glorioso vencedor da
armada tun D. Francisco de Almeida.
Reproduzimos a parte do episódio, na qual Vasco da Gar conta ao rei de Melinde a aparição de Adamastor: Tão temerosa vinha e carregada, Que pôs nos corações um grande medo: Bramindo o negro mar, de longe brada Como se desse em vão nalgum rochedo.
"Ó Potestade, disse, sublimada! Que ameaço divino, ou que segredo Este clima e este mar nos apresent; Que mor cousa parece que torment Não acabava, quando uma figura Se nos mostra no ar, robusta e vai De disforme e grandíssima estatura O rosto carregado, a barba esquálid Os olhos encovados, e a postura Medonha e má, e a cor terrena e pai Cheios de terra e crespos os cabelos A boca negra, os dentes amarelos. Tão grande era de membros, que bem posso Certificar-te, que este era o segundo De Rodes estranhíssimo colosso, Que um dos sete milagres foi do mundo; C'um tom de voz nos fala horrendo e grosso, Que pareceu sair do mar profundo: Arrepiam-se as carnes e o cabelo A mi e a todos, só
de ouvi-lo e vê-lo. E disse: "Ó gente ousada, mais que quantas No mundo cometeram grandes cousas; Tu, que por guerras cruas, tais e tantas, E por trabalhos vãos nunca repousas, Pois os vedados términos quebrantas, E navegar meus longos mares ousas, Que eu tanto tempo há já que guardo e tenho, Nunca arados d'estranho ou próprio lenho: Pois vens ver os segredos escondidos Da natureza e do úmido elemento, A nenhum grande humano concedidos De nobre ou de imortal merecimento, Ouve os danos de mi, que apercebidos Estão a teu sobejo atrevimento, Por todo o largo mar e pela terra, Que inda hás de sojugar com dura guerra. Sabe que quantas naus esta viagem Que tu fazes,
fizerem de atrevidas, Inimiga terão esta paragem Com ventos e tormentas
desmedidas. E na primeira armada que passagem Fizer por estas ondas
insofridas, Eu farei d'improviso tal
castigo, Que seja mor o dano que o perigo. Aqui espero tomar, se não me engano, De quem me descobriu, suma vingança; E não se acabará só nisto o dano De vossa pertinace confiança; Antes em vossas naus vereis cada ano, Se é verdade o que o meu juízo alcança, Naufrágios, perdições de toda sorte, Que o menor mal de todos seja a morte. E do primeiro ilustre que a ventura Com fama alta fizer tocar os céus, Serei eterna e nova sepultura Por juízos incógnitos de Deus. Aqui porá da turca armada dura Os soberbos e prósperos trofeus: Comigo de seus danos o ameaça A destruída Quíloa com Mombaça. Outro também virá de honrada fama, Liberal,
cavaleiro, enamorado, E consigo trará a fermosa dama, Que amor por grã mercê lhe terá dado. Triste ventura e
negro fado os chama Neste terreno meu, que duro e irado Os deixará dum cru
naufrágio vivos, Para verem trabalhos
excessivos. Verão os Cafres ásperos e avaros Tirar à linda dama seus vestidos; Os cristalinos membros e perciaros À calma, ao frio, ao ar verão despidos, Depois de ter pisada longamente Co'os delicados pés a areia ardente. E verão mais os olhos que escaparem De tanto mal, de tanta desventura, Os dois amantes míseros ficarem Na férvida e implacábil espessura. Ali, depois que as pedras abrandarem Com lágrimas de dor, de mágoa pura, Abraçados as almas soltarão Da formosa e misérrima prisão." Mais ia por diante o monstro horrendo Dizendo nossos fados, quando alçado Lhe disse eu: "Quem és tu? que esse estupendo Corpo certo me tem maravilhado." A boca e os olhos negros retorcendo, E dando um espantoso e grande brado, Me respondeu, com voz pesada e amara, Como quem da pregunta lhe pesara: "Eu sou aquele oculto e grande cabo A quem chamais vós outros Tormentório, Que nunca a Ptolomeu, Pompônio, Estrabo, Plínio, e quantos passaram, fui notório. Aqui toda a africana costa acabo Neste meu nunca visto promontório, Que para o pólo antártico se estende, A quem vossa ousadia tanto ofende." |
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